18 outubro 2005

Culto a Deus e a rotina

Continuo a pensar sobre a rotina no nosso relacionamento com Deus. Se nós queremos ter um relacionamento com Deus, então o nosso relacionamento com Ele tem de ser tudo menos rotineiro. Não podemos relacionar-nos com ele sempre à mesma hora, no mesmo lugar, com o mesmo ritual. Isso torna o nosso relacionamento com Ele cada vez mais distante e impessoal. Cada vez que repetimos a mesma coisa, o nosso envolvimento diminui.

Por isso as pessoas gostam tanto dos retiros, dos acampamentos, dos eventos especiais. Porque quebram essa rotina, e nos levam a relacionar-nos uns com os outros e com Deus de uma forma diferente. Estamos todos mais envolvidos, não porque um retiro é melhor, mas simplesmente porque é diferente, não é a mesma rotina de sempre.

Surge um novo modelo de igreja, e as pessoas abraçam-no pensando que esse modelo é melhor, porque de repente sentem-se novamente mais envolvidas com Deus. O modelo pode ser ou não melhor, mas o principal é ser diferente. Logo se tornará numa rotina, e as pessoas começarão a buscar um novo modelo. Deixamos de nos reunir em igrejas-edifícios, e passamos a reunir-nos em casas. Depois passamos a reunir-nos em jardins. Depois passamos a reunir-nos em naves. Ou então, se o problema é a "ordem de culto" (o programa), fazemos uma nova ordem de culto, que seguimos a partir daí. Mas nunca ficaremos satisfeitos.

Não imagino o meu relacionamento com a minha esposa assim. Levá-la a jantar sempre no mesmo sítio, dizer-lhe sempre as mesmas coisas, ir de férias sempre ao mesmo sítio, fazer sempre a mesma coisa ao fim de semana. Que seca seria a nossa vida.

Não será muito melhor cada vez ser uma coisa diferente? Não haver um dia marcado? Não haver uma ordem de culto? Não haver um sítio marcado?

12 comentários:

jaime fernandes disse...

De facto pode não ser muito boa, mas será que toda a rotina é má!?

Por exemplo, todas as manhãs nós lavamos os nossos dentes como uma rotina... no entanto sentimo-nos bem com a boca limpa e fresca (e os outros também porque não apanham com o nosso mau hálito) (lol)

Nuno Barreto disse...

Essa questão vai ao encontro daquilo que escrevi no artigo anterior, em que argumentei que a rotina é boa para tarefas, mas má para relacionamentos. Não sei se concordas.

Filipe Spinner disse...

Nuno, peço desculpa por me intrometer na tua colocação ao Jaime, mas discordo de ti! A vida é já em si mesma uma rotina e a nossa vida com Deus TEM de ser uma rotina. Apartir do momento em que a nossa espiritualidade vive na ansiedade do novo e do diferente deixamos de perceber um Deus que é presente em nós em todos os momentos, isto é, na rotina. Por outro lado deixamos de perceber a graça de Deus manifestada no comum, no rotineiro e no intediante. Não vejo nenhum mal em "subir ao monte para uma transfiguração de vez em quando", mas assim como os discípulos, vamos rapidamente perceber que não é lá que se constroi a tenda da espiritualidade.
Uma Abraço Amigo

Filipe Spinner

Nuno Barreto disse...

Não é nenhuma intromissão :)

Acho que percebo muito bem o que queres dizer. Concordo contigo quando dizes que a nossa vida não deve ansiar apenas pelo novo e diferente. Deus está em todas as coisas. Nas mais pequenas e nas maiores.

O meu argumento contra a rotina nos relacionamentos vai ao encontro de outra questão. Não defendo que devamos estar sempre à procura da nova expeiência, que seria um extremo, mas que não nos devemos prender a relações rotineiras com Deus, que será, na minha opinião outro extremo.

Como exemplo, não faço sempre a mesma coisa quando estou com os meus amigos, nem digo sempre a mesma coisa (ausência de rotina nos relacionamentos), mas também não ando desesperadamente à procura que eles se relacionem comigo de uma forma espectacular.

No fundo, é um equilíbrio em que estás livre de duas coisas; da rotina, e de sentir que tem de haver algo espectacular. Os relacionamentos devem ser normais.

Não sei se concordas comigo, mas também não tens de concordar :)

JOINCANTO disse...

Nuno, percebo o queres dizer, mas a "não-rotina" nos relacionamentos também pode tornar-se numa rotina. A rotina do esquecimento e da desordem. E pior ainda, cada um faz o dá na "real gana".

As Cartas Paulinas especialmente, estabelecem claramente "ordem de culto" e como cultuar, embora isso possa ser feito criativamente.

Nuno Barreto disse...

Podias expôr melhor essa ordem de culto das cartas paulinas?

Ver para crer disse...

Rotina ou não rotina, o que é preciso é amar.
O amor é que dá sentido a tudo!

Nuno Barreto disse...

E o amor é rotineiro ou não?

Filipe Spinner disse...

Boa questão essa: "O amor é rotineiro?"

Diria que sim, absolutamente sim. Mas que pode ser expressado de formas diferentes, criativas e inspiradoras, mas isso não altera o facto de que o amor está lá, todos os dias, sejamos criativos ou passivos ele está lá nas coisas comuns e rotineiras do dia a dia.

Mais uma vez peço desculpa pela intromissão numa questão que não me foi lançada.

Mudando de assunto, Nuno, a minha conta de aves vistas cresceu esta semana para 132. A última a ser avista foi hoje, Fuselo (Limosa lapponica), acabada de chegar da sua migração de inverno, sem gripes, eu espero.

Abraço ornitológico

Filipe Spinner

Nuno Barreto disse...

Fico feliz por teres aumentado a tua lista. Por acaso vi um Fuselo em Óbidos no Domingo passado. Espero que possas aumentar ainda mais a tua lista no resto do ano.

Quanto ao amor ser rotineiro, talvez nós tenhamos uma opinião diferente do que é a rotina.

JOINCANTO disse...

A "rotina da ceia" 1ª Cor.11:23.34; A "rotina do culto" 1ª Cor. 14:26-31, etc...

Nuno Barreto disse...

Eu tentei ver uma rotina nesses textos, a sério que tentei. Mas tudo o que encontrei foi normas e regras. Regras essas que não restringem a liberdade, pelo contrário, ajudam a que todos tenham a mesma liberdade em igualdade.

Uma rotina seria algo assim: Na ceia do Senhor, primeiro o pastor faz uma oração, depois os diáconos distribuem o pão, depois dois presbíteros fazem uma oração, depois os diáconos distribuem o vinho, depois 3 irmãos da congregação louvam a Deus, depois comem e bebem tudo ao mesmo tempo....

Ou seria: Quando fizerem um culto, deverão fazê-lo em tal edifício com tais e tais características, em tal dia a tais horas. As mulheres sentam-se do lado esquerdo, e os homens do lado direito. Começam com uma oração de um minuto, depois um tempo de louvor de 30 minutos, depois levantam a oferta, depois adoram mais 30 minutos, depois fazem uma pregação, e terminam com uma oração.

Isso seria rotina.